lua de sangue

ser lua
ser nua
ser tua

dentro da noite
encontro silêncio
no teu nome


eu preferi não gritar
eu resolvi esmaecer
em busca de me encontrar



"cai a lua, caem as plêiades e
é meia-noite, o tempo passa e
eu só, aqui deitada, desejante"
-safo


escrever #2



as únicas coisas que sinto que realmente pertencem a mim
 são estes versos que secretamente escrevo entre as aulas
 no meio tempo entre viver e sentir.

existência


Nocturne (Lars Von Trier)



eu flutuava pela cidade em mim deserta. andava vagarosamente por ônibus vazios. eu gosto do trecho do percurso em que consigo ver as luzes da cidade distante. tive náuseas de medo. é horripilante não saber em qual segundo poderei inexistir. quando atravesso a esquina, posso ver as estrelas.

volto a me sentir uma camponesa, cercada por campos limpos. em dias nublados eu sou um barco que navega em meu mar interior. velejar-me. ora velejo, ora caminho por florestas transcendentais. minha escrita agora se torna densa e escura. eu gosto da escuridão, 'eu tenho tanto medo das coisas que luz pode esconder' minha concha é confortável, meus sentimentos estão seguros nela. desde de criança preservo o que sinto nos versos, não há nada sobre escondê-los. o silêncio sempre foi meu maior companheiro, apesar de agora ele parecer um amigo distante.



mystic




um punhado de noite nas mãos
eu sou assim mesmo
distante
minha estrela é ardente
oh lua mística!
há noites que sinto tua luz em meu peito

procura do poema

Nostalgia (Tarkovski)




barulho de tv alta vizinho
silêncio de um grilo cantado
procuro
a ternura de um poema
na sombra que se faz
absoluta e elegante
na parede do meu quarto
procuro
nessa pouca luz
que a lua deixa sobre os móveis
no risco de som do automóvel na avenida
procuro-te poema
nesse suor que me escorre pelas pernas
nos livros silenciosos no instante
nesse bojo de encanto
que as coisas carregam




sem fios de esperança no cabelo
vontade de escrever versos tristes
coração calado
verso perdido

ana c.




Opto pelo olhar estetizante, com epígrafe de mulher moderna desconhecida (''Não estou conseguindo explicar minha ternura, minha ternura entende?") Não sou rato de biblioteca, não entendo quase aquele museu da praça, não tenho embalo de produção, não nasci pra cigana, e também tenho o chamado olho com pecados. Nem aqui? Recito ww pra você: "Amor, isto não é um livro, sou eu,  sou eu que você segura e sou eu que te seguro (é de noite? estivemos juntos e sozinhos?), caio das páginas nos teus braços, teus dedos me entorpecem, teu hálito, teu pulso, mergulho dos pés à cabeça, delícia e chega -



Ana Cristina Cesar, in: Poética. Companhia das Letras. pág. 68

*** ana c. aquela em que me encontro nas linhas
    

distância



484 km
10 horas
eu fazendo contas inúteis no escuro
enquanto te sonho detrás da porta
fazendo surpresas improváveis
esqueci como é bom sonhar
contigo
me esperando no colchão d'água ilusório
        (no qual estou afogada)
fazendo contas improváveis
no escuro

ser lua



a inconfissão
o tédio
a vontade de ser lua
as palavras se desmanchando no vazio da paisagem
os olhos afogados
o coração sumindo

nublar




me sinto indisposta. há um silêncio na cadeira de escrever. estes dias nublados estão me congelando por dentro. me torno enferma de mim mesma. queria aqueles dias de praia novamente. mover-me. como uma folha seca vou envelhecendo por dentro dos livros. algo por dentro dos meus olhos dói ligeiramente. queria mergulhar em tua pele. somar nossas neblinas. você adentrou a minha escrita e não quer mais sair...


escrito em 01/03/2015

escrever #1




escrever tonta
em esquinas delirantes
trementes dedos longos 
que se atropelam em horizontes
escrever
escrever
escrever
sem cessar
essa sensação 
de ser

Retrato em preto e branco




Foi preciso tirar aquele velho diário de capa customizada do fundo da gaveta. Eu precisei dar vida a Maria que outrora fui, metade luz e a outra escuridão, como um retrato em preto e branco. Eu preciso me reencontrar no abismo das palavras, em versos simples. Sem medo do amor, da dor, da melancolia; sem medo de sentir. 

Esse blog é um estimulo pra voltar a escrever poesia, a tê-la tatuada no peito. Como quando eu a descobri, naquelas tardes sob a dimensão do meu quarto. Aqui também será um espaço para escritos de diários e compartilhamento livros e artistas.

...

Ver a vida através dos olhos da poesia.