procura do poema

Nostalgia (Tarkovski)




barulho de tv alta vizinho
silêncio de um grilo cantado
procuro
a ternura de um poema
na sombra que se faz
absoluta e elegante
na parede do meu quarto
procuro
nessa pouca luz
que a lua deixa sobre os móveis
no risco de som do automóvel na avenida
procuro-te poema
nesse suor que me escorre pelas pernas
nos livros silenciosos no instante
nesse bojo de encanto
que as coisas carregam




sem fios de esperança no cabelo
vontade de escrever versos tristes
coração calado
verso perdido

ana c.




Opto pelo olhar estetizante, com epígrafe de mulher moderna desconhecida (''Não estou conseguindo explicar minha ternura, minha ternura entende?") Não sou rato de biblioteca, não entendo quase aquele museu da praça, não tenho embalo de produção, não nasci pra cigana, e também tenho o chamado olho com pecados. Nem aqui? Recito ww pra você: "Amor, isto não é um livro, sou eu,  sou eu que você segura e sou eu que te seguro (é de noite? estivemos juntos e sozinhos?), caio das páginas nos teus braços, teus dedos me entorpecem, teu hálito, teu pulso, mergulho dos pés à cabeça, delícia e chega -



Ana Cristina Cesar, in: Poética. Companhia das Letras. pág. 68

*** ana c. aquela em que me encontro nas linhas
    

distância



484 km
10 horas
eu fazendo contas inúteis no escuro
enquanto te sonho detrás da porta
fazendo surpresas improváveis
esqueci como é bom sonhar
contigo
me esperando no colchão d'água ilusório
        (no qual estou afogada)
fazendo contas improváveis
no escuro